Depois de ver o mercado por dentro, observo que o conceito de marcação a mercado é o que mais leva pessoas a venderem investimentos bons em hora ruim. A história típica: alguém compra Tesouro IPCA+ 2035 em janeiro, abre o app em junho e vê "patrimônio: -R$ 8.000". O instinto manda vender para "não perder mais"; a realidade é que, segurando até o vencimento, o título entrega exatamente a taxa contratada. Este guia explica por que os preços oscilam, quando isso importa e quando o saldo na tela é apenas ruído.
A definição técnica
Marcação a mercado é a regra contábil que precifica diariamente um título com base no preço que ele teria se fosse vendido naquele dia. Para títulos públicos negociados no Tesouro Direto, o próprio Tesouro Nacional publica diariamente o preço de recompra de cada papel. Para títulos privados (CDBs, debêntures), o preço é calculado pela curva de juros vigente.
A alternativa contábil é a "marcação pela curva" (também chamada de marcação na taxa contratada): o título cresce diariamente conforme a taxa pactuada na compra, sem refletir oscilações de mercado. CDBs sem liquidez antes do vencimento costumam usar essa marcação. Tesouro Direto sempre usa marcação a mercado.
A regra mais importante
Marcação a mercado afeta apenas o que você vê hoje na tela. Se segurar o título até o vencimento, recebe a taxa contratada — exatamente como se a oscilação não tivesse ocorrido. O 'prejuízo' só se materializa se houver venda antecipada.
A matemática por trás
Todo título prefixado ou IPCA+ tem dois componentes: o valor de face (o que será pago no vencimento) e a taxa de desconto (a taxa que o mercado exige para chegar a esse valor de face). Quando você compra, paga um preço atual; ao longo do tempo, o título "cresce" até atingir o valor de face.
A fórmula simplificada do preço atual de um título prefixado:
Preço = Valor de face / (1 + taxa)^prazo
Exemplo: Tesouro Prefixado 2030 com valor de face R$ 1.000, taxa atual 12% e prazo restante 4 anos.
Preço = 1.000 / (1,12)^4 = R$ 635,52
Se a taxa subir para 14% (Selic mais alta), o preço cai para R$ 591,72 (queda de 6,9%).
Esse é o mecanismo: taxa sobe → preço cai. Taxa cai → preço sobe. A intensidade depende do prazo (quanto mais longo o título, maior a oscilação) — conceito conhecido como duration, que merece explicação própria.
Cenários práticos: o que acontece com cada título
| Evento | Prefixado 2030 | IPCA+ 2035 | Tesouro Selic |
|---|---|---|---|
| Selic sobe inesperadamente 1 p.p. | Cai ≈ 4-5% | Cai ≈ 6-8% | Estável (±0) |
| Selic cai 1 p.p. | Sobe ≈ 4-5% | Sobe ≈ 6-8% | Estável (±0) |
| IPCA dispara para 10% | Cai ≈ 8-12% | Sobe ≈ 4-6% | Estável (±0) |
| Crise de confiança fiscal | Cai ≈ 10-15% | Cai ≈ 8-12% | Estável (±0) |
| Prazo se aproximando do vencimento | Converge ao valor de face | Converge ao valor de face | Sempre acompanha |
Estimativas ilustrativas. Magnitude real depende da duration de cada título e do tamanho do choque. Tesouro Selic é praticamente imune por ser pós-fixado. Fins educacionais.
Por que Tesouro Selic é diferente
Tesouro Selic acompanha diariamente a Selic-over (taxa efetiva). Como o título é pós-fixado, o preço já reflete continuamente o que está acontecendo com a taxa básica — não há "expectativa" embutida no preço que possa ser revisada. Por isso a marcação é praticamente sempre positiva, sem oscilações relevantes.
Já o Tesouro IPCA+ e Prefixado embutem expectativas de mercado sobre a Selic e a inflação dos próximos anos. Quando essas expectativas mudam (alta inesperada da Selic, surpresa inflacionária, mudança fiscal), os preços se ajustam imediatamente. É exatamente esse ajuste que aparece como "prejuízo" na tela.
Quando marcação a mercado é OPORTUNIDADE
Marcação negativa em IPCA+ longo (ex: -8%) significa que a taxa real subiu — agora o investidor pode comprar IPCA + 7% onde antes era IPCA + 6%. Para quem está aportando, é oportunidade, não prejuízo. Quem comprou antes mantém a taxa antiga até o vencimento.
Oscilar antes do vencimento × vender antecipadamente
Vale separar dois conceitos que costumam ser confundidos. Oscilar antes do vencimento é o que este guia trata: o preço de mercado muda todo dia na sua tela, mas isso é apenas marcação contábil — se você segura o título até a maturidade, recebe a taxa contratada e a oscilação no caminho não tem efeito prático nenhum.
Já a venda antecipada é o momento em que essa oscilação vira resultado real: ao vender antes do vencimento, você embolsa (ou perde) a diferença entre o preço pago e o preço de mercado do dia, e ainda pode haver IR sobre o lucro. Em outras palavras, o preço só importa de verdade quando você decide vender. Se quer entender o cálculo, a tributação e quando a venda antecipada faz sentido, veja o guia complementar marcação a mercado e venda antecipada no Tesouro Direto.
Como evitar o erro de vender em má hora
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Comprar pensando no vencimento: se você sabe que pode segurar até 2035, marcação intermediária é irrelevante
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Distribuir vencimentos escalonados: 2027, 2030, 2035, 2045 — sempre tem um próximo do vencimento, reduzindo necessidade de venda antecipada
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Manter reserva de emergência separada: evita resgatar IPCA+ em má hora por imprevisto
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Não acompanhar saldo diariamente: revisão mensal ou trimestral é suficiente; ver oscilação diária aumenta risco emocional
CDB e marcação: a diferença importante
CDBs sem liquidez antecipada usam marcação na curva — o saldo cresce diariamente conforme a taxa contratada, sem oscilar. Você nunca vê "prejuízo" na tela. Mas isso vem com restrição: você não pode vender antes do vencimento.
CDBs com liquidez diária aceitam venda antecipada, mas o resgate antecipado costuma ser penalizado: o emissor paga taxa pré-acordada (geralmente menor que a oferecida no vencimento). Tesouro Direto, por contraste, sempre permite venda — mas pelo preço de mercado vigente.
Leituras relacionadas
Perguntas frequentes
O que é marcação a mercado em Tesouro Direto?
Marcação a mercado é a precificação diária do título com base no que ele valeria se vendido naquele momento, considerando as taxas atuais. Se a Selic ou as taxas longas sobem após sua compra, o preço de mercado do título cai. Se caem, sobe. Tesouro Selic é praticamente imune; Prefixado e IPCA+ são sensíveis a esse efeito.
Devo me preocupar quando vejo prejuízo na tela?
Não, se você comprou para segurar até o vencimento. A taxa contratada na compra (ex: IPCA + 6,5%) está garantida na maturidade, independentemente das oscilações no caminho. O 'prejuízo' só vira real se você vender antes. Se o objetivo era manter, a oscilação é apenas marcação contábil — não afeta o resultado final.
Por que os títulos oscilam todo dia antes do vencimento?
Porque o preço de mercado reflete as taxas de juros vigentes a cada dia, e essas taxas mudam com expectativas de Selic, inflação e risco fiscal. Como o título tem um valor de face fixo no vencimento, qualquer mudança na taxa de desconto altera o preço hoje. Quanto mais longo o título (maior a duration), maior a oscilação para cada mudança nas taxas.
Qual a diferença entre oscilar antes do vencimento e vender antecipadamente?
Oscilar é o preço mudando dia a dia na tela — não tem efeito prático se você segura até o vencimento. Vender antecipadamente é transformar essa marcação em resultado real: você embolsa (ou perde) a diferença entre o preço pago e o preço de mercado do dia. Este guia trata do primeiro; quem vai vender antes deve ler o guia específico de venda antecipada.
Posso vender Tesouro IPCA+ com prejuízo e comprar de novo mais barato?
Tecnicamente possível, mas raramente vale a pena. A venda gera IR sobre eventual lucro acumulado e fixa o prejuízo. Comprar de volta a uma taxa melhor pode compensar parcialmente, mas o IR pago não volta. Para a maioria, simplesmente segurar até o vencimento entrega o resultado contratado sem custo tributário extra.
Como saber a duration do meu título?
O Tesouro Direto publica a duration de cada papel na própria plataforma. Quanto maior a duration (medida em anos), maior a oscilação esperada para cada 1% de mudança nas taxas. Tesouro IPCA+ 2045 tem duration alta (10+ anos); Tesouro Selic tem duration próxima de zero. É métrica essencial para escolher prazo.
Marcação a mercado se aplica a fundos?
Sim. Fundos de renda fixa usam marcação a mercado nas cotas que reportam diariamente. Por isso fundos com títulos longos podem mostrar perda em ciclos de alta de juros, mesmo que os títulos venham a vencer pelo valor de face. A diferença é que o gestor pode comprar e vender ao longo do tempo, então o resultado do fundo nem sempre converge ao 'valor de face' como em um título isolado.
Escrito por Patrimo
O Patrimo é um app brasileiro de controle financeiro. Escrevemos os guias que gostaríamos de ter lido no começo: com a conta feita na sua frente, exemplos em reais e números que vêm do Banco Central, da B3 e da Receita Federal — nunca de achismo nem de promessa de rentabilidade. Conteúdo educacional; não é recomendação de investimento.
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