"Renda fixa não perde dinheiro." Essa frase circula há décadas e está errada. Renda fixa tem risco de crédito (emissor quebrar) e risco de mercado — o famoso efeito da marcação a mercado. Se você compra um Tesouro Prefixado a 11,5% ao ano e a taxa sobe para 14,5% no mês seguinte, seu título perde valor de mercado mesmo sem nada ter acontecido com o governo. Entender esse mecanismo separa o investidor consciente do que se assusta com a primeira notícia negativa.
A matemática básica
Um título é um contrato: você empresta R$ 1.000 e o emissor devolve R$ 2.000 daqui a 10 anos. Para o mercado precificar esse título hoje, aplica-se o desconto pela taxa de juros atual. Se a taxa vigente é 10% ao ano, R$ 2.000 em 10 anos valem hoje cerca de R$ 771. Se a taxa sobe para 14,75% (Selic atual em abril de 2026), R$ 2.000 em 10 anos valem hoje R$ 499.
O título continua prometendo entregar R$ 2.000 no vencimento. Se você esperar, recebe. Mas se precisar vender hoje, o comprador aplica a taxa atual do mercado — e paga o que faz sentido econômico para ele. O preço de recompra do Tesouro Direto usa essa mesma lógica, com spread (diferença) menor que o mercado secundário tradicional.
O caso real de 2022
Em 2020, com Selic a 2%, muitos investidores compraram Tesouro Prefixado 2031 com taxa de 7% ao ano, animados com a rentabilidade "alta" comparada à Selic. Em 2022, o ciclo de alta da Selic levou a taxa a 13,75%. Quem checou o extrato encontrou prejuízo mark-to-market entre 20% e 30% no título. Pânico, vendas forçadas e carta aos amigos do grupo de WhatsApp.
Quem carregou até 2031 teve exatamente os 7% ao ano contratados. Quem vendeu em 2022 realizou o prejuízo. A diferença não foi de escolha de título — foi de horizonte. Tesouro Prefixado e IPCA+ longos são contratos de longo prazo. Usar dinheiro que pode ser necessário em 1-2 anos neles é convidar o erro de comportamento no primeiro susto.
Quando vender antes pode fazer sentido
A marcação a mercado não é só risco — é também oportunidade. Se você comprou Tesouro Prefixado 2031 em 2024 a 12% ao ano, e no segundo semestre de 2025 a taxa caiu para 9,5%, seu título está valendo bem mais que o preço de compra. Vender nesse momento realiza o ganho — uma operação chamada "trade de renda fixa".
O raciocínio: o título vai pagar 12% até 2031. Se o mercado agora só oferece 9,5%, o seu título está "caro" — e você pode monetizar essa diferença vendendo. Claro que você perde os 12% futuros, mas embolsa uma rentabilidade anualizada que, no curto prazo, pode ser maior do que os 12% projetados.
Esse tipo de operação exige três condições: liquidez disponível (você não precisa do dinheiro para outra coisa), conhecimento técnico para calcular a rentabilidade anualizada realizada vs. alternativas disponíveis, e disciplina para não cair na tentação de "timing" em todo movimento pequeno de taxa.
Tabela: risco de marcação a mercado por título
| Título | Sensibilidade à taxa | Se carregar até vencimento | Se vender antes |
|---|---|---|---|
| Tesouro Selic | Muito baixa | Selic acumulada | Praticamente = Selic acumulada |
| Tesouro IPCA+ 2029 | Média | IPCA + taxa contratada | Pode ser maior ou menor |
| Tesouro IPCA+ 2045 | Alta | IPCA + taxa contratada | Variação grande (±30%) |
| Tesouro Prefixado 2028 | Média | Taxa contratada | Pode mostrar prejuízo |
| Tesouro Prefixado 2031+ | Muito alta | Taxa contratada | Variação grande (±25%) |
O conceito de duration na prática
Duration é o tempo médio ponderado dos fluxos de caixa de um título. Quanto maior a duration, maior o impacto de mudanças de taxa. Para cada 1% de variação na taxa de juros, um título com duration de 5 anos varia aproximadamente 5% no preço; com duration de 10 anos, varia 10%.
Tesouro Selic tem duration próxima de zero — por isso não oscila. Tesouro Prefixado 2028 tem duration de cerca de 2,5 anos. Tesouro IPCA+ 2045 tem duration acima de 12 anos. A regra prática: se você não sabe o que é duration, provavelmente não deveria ter títulos de duration acima de 5 anos — a menos que tenha certeza absoluta de que vai carregar até o fim.
Checklist antes de comprar
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Qual é o prazo do meu objetivo com esse dinheiro? Se for menor que o vencimento, pode dar errado
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Posso aguentar ver prejuízo mark-to-market de 20% sem vender em pânico? Se a resposta honesta é não, reduza duration
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Tenho reserva de emergência separada em Tesouro Selic ou CDB pós-fixado? Se sim, pode assumir mais risco no resto da carteira
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Estou comprando porque a taxa está alta ou porque "parece bom"? Taxa alta é a hora certa de prefixar, mas só se você vai carregar
A marcação a mercado não é bug do sistema — é feature. Ela espelha a realidade econômica de que dinheiro no futuro vale menos quando juros sobem, e vale mais quando caem. Entender isso tira a ansiedade de olhar extrato todo dia. Investidor consciente compra com prazo compatível, carrega com disciplina e ignora o ruído diário de preço. Investidor ansioso abandona um título bom por um susto de curto prazo — e frequentemente recompra caro depois de uma baixa.
Imposto na venda antecipada: o que sai do seu ganho
Vender antes do vencimento não é só uma questão de preço de mercado — há custo fiscal sobre o lucro. O IR no Tesouro Direto é regressivo: quanto mais tempo você segura, menor a alíquota. Esse é mais um motivo para não fazer trade impulsivo: vender cedo demais corrói o ganho por dois lados (preço e imposto).
| Prazo do investimento | Alíquota de IR sobre o lucro |
|---|---|
| Até 180 dias | 22,5% |
| De 181 a 360 dias | 20% |
| De 361 a 720 dias | 17,5% |
| Acima de 720 dias | 15% |
Tabela regressiva do IR (Lei 11.033/2004). Há ainda IOF regressivo se o resgate ocorrer nos primeiros 30 dias. Se a venda gerar prejuízo, não há IR. Fins educacionais.
Detalhe importante: o IR e o IOF são retidos automaticamente pela corretora/Tesouro na liquidação da venda — você não precisa emitir DARF. Por isso, ao calcular se um "trade de renda fixa" compensa, use sempre o ganho líquido (depois do imposto), não o bruto. Um título que valorizou 8% em 4 meses rende, na prática, cerca de 6,2% depois dos 22,5% de IR.
Como vender (e quando o preço de recompra é publicado)
A venda no Tesouro Direto é simples, mas tem janela de horário. O Tesouro Nacional recompra os títulos todos os dias úteis das 9h30 às 18h, ao preço de recompra vigente naquele momento — que muda ao longo do dia conforme os juros. Fora desse horário (e nos fins de semana), os preços ficam congelados e a venda só liquida no próximo dia útil. O valor cai na sua conta da corretora em D+1.
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Perguntas frequentes
O que é marcação a mercado no Tesouro Direto?
É a atualização diária do preço de um título pelo valor que ele teria se fosse vendido hoje. O Tesouro Nacional publica preços de recompra com base na taxa de juros atual. Se você compra um prefixado a 11,5% e a taxa de mercado sobe, o preço do título cai para oferecer retorno equivalente a um novo comprador.
Posso perder dinheiro no Tesouro Direto?
Sim, se vender antes do vencimento em um momento de juros mais altos que na compra. Tesouro Prefixado e IPCA+ longos podem mostrar prejuízo de 20% a 30% no curto prazo por marcação a mercado. Se carregar até o vencimento, recebe exatamente a taxa contratada na compra.
Como evitar prejuízo com marcação a mercado?
Alinhe o vencimento do título ao prazo do seu objetivo e mantenha reserva de emergência em Tesouro Selic ou CDB pós-fixado. Assim você não precisa vender o título longo em momento ruim. Quanto maior a duration, maior a oscilação de preço — só compre prazos longos se tiver certeza de carregar até o fim.
Qual título sofre menos marcação a mercado?
O Tesouro Selic, cuja remuneração acompanha a Selic em tempo real e tem duration próxima de zero — por isso quase não oscila. É a referência para reserva de emergência. Já Prefixado e IPCA+ longos (2045, 2050, 2060) têm a maior sensibilidade à variação de juros.
Vale a pena vender o Tesouro antes do vencimento?
Pode valer quando os juros caem abaixo da taxa que você travou: o título se valoriza e a venda realiza esse ganho (o 'trade de renda fixa'). Mas exige liquidez disponível, cálculo da rentabilidade anualizada e disciplina. Para a maioria, comprar com prazo alinhado ao objetivo e carregar funciona melhor.
Paga imposto ao vender Tesouro Direto antes do vencimento?
Sim, sobre o lucro, com IR regressivo: 22,5% para resgates em até 180 dias, caindo até 15% após 720 dias. Há também IOF regressivo se o resgate ocorrer nos primeiros 30 dias. O imposto incide só sobre o ganho — se houver prejuízo na venda, não há IR.
O que é marcação a mercado?
É a prática contábil de atualizar diariamente o preço de um título pelo valor que ele valeria se fosse vendido hoje no mercado. No Tesouro Direto, o Tesouro Nacional publica preços de recompra diários com base na taxa de juros atual. Se você compra Tesouro Prefixado a 11,5% e a taxa de mercado sobe para 14,5%, seu título precisa oferecer retorno equivalente para um novo comprador — o que só acontece se o preço cair. A matemática é obrigatória, não opcional.
Todos os títulos sofrem marcação a mercado?
Sim, todos — mas o impacto varia. Tesouro Selic tem oscilação mínima porque o cupom acompanha a Selic em tempo real. Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+ podem ter variações grandes no curto prazo, especialmente os de prazo longo (vencimento em 2045, 2050, 2060). Se você carrega até o vencimento, a marcação a mercado deixa de importar: recebe exatamente a rentabilidade contratada na compra.
Posso perder dinheiro no Tesouro Selic?
Na prática, não — desde que o governo federal honre seus compromissos. O Tesouro Selic paga a Selic acumulada do período, com variações diárias mínimas. Em 2020, houve uma situação atípica em que a taxa de recompra ficou ligeiramente descolada, gerando pequena marcação a mercado negativa em títulos longos de Selic. Hoje, esse efeito foi corrigido. Para reserva de emergência, o Tesouro Selic continua sendo a referência mais próxima de 'zero risco de mercado' no Brasil.
Vale a pena fazer trade com Tesouro Direto?
Para o investidor individual comum, raramente. Fazer trade com renda fixa exige entender duration, convexidade, expectativa de juros futuros e custo fiscal (IR regressivo sobre o ganho). Quem faz isso bem são mesas de renda fixa de fundos, que operam com informação, volume e custos menores. Como investidor pessoa física, a estratégia com Tesouro Direto que costuma funcionar melhor é comprar com prazo alinhado ao objetivo e carregar — sem tentar acertar o timing do mercado.
Escrito por Patrimo
O Patrimo é um app brasileiro de controle financeiro. Escrevemos os guias que gostaríamos de ter lido no começo: com a conta feita na sua frente, exemplos em reais e números que vêm do Banco Central, da B3 e da Receita Federal — nunca de achismo nem de promessa de rentabilidade. Conteúdo educacional; não é recomendação de investimento.
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