Criada em 1964, a caderneta de poupança ainda concentra mais de R$ 1 trilhão de brasileiros. É o produto financeiro mais popular do país — e também um dos que mais silenciosamente custa dinheiro. Com a Selic em 14,00% ao ano, a diferença entre ficar na poupança e migrar para alternativas simples passa de R$ 3.300 por ano para cada R$ 100 mil aplicados.
O que a Poupança Rende Hoje — e o que Fica na Mesa
A regra atual da poupança foi definida pela Lei 12.703/2012: quando a Selic está acima de 8,5% ao ano, a remuneração é a TR mais uma parcela adicional fixa de 0,5% ao mês. Só quando a Selic cai para 8,5% ou menos é que ela passa a render 70% da Selic + TR. Com a Selic a 14,00% e a TR em 0,173% ao mês, as duas parcelas se combinam — (1 + 0,00173) × (1 + 0,005) − 1 — em 0,674% ao mês, o equivalente a cerca de 8,39% ao ano, isentos de IR. Veja quanto rende na poupança para diferentes valores e prazos.
Comparando com outras opções de renda fixa com liquidez semelhante — você pode simular poupança vs CDI com o seu próprio valor:
| Produto | Taxa bruta | IR | Líquido/ano | R$ 100k em 1 ano | Mensal aprox. |
|---|---|---|---|---|---|
| Poupança | 8,39% | Isento | 8,39% | R$ 8.393 | R$ 699 |
| Tesouro Selic | 13,80%* | 17,5% | 11,39% | R$ 11.385 | R$ 949 |
| CDB 100% CDI | 14,15% | 17,5% | 11,67% | R$ 11.674 | R$ 973 |
| LCI 90% CDI | 12,735% | Isento | 12,735% | R$ 12.735 | R$ 1.061 |
*Tesouro Selic descontado da taxa de custódia de 0,20% a.a. (B3). Selic 14,00%, CDI 14,15%. IR calculado com alíquota 17,5% (prazo de 1 a 2 anos). LCI com carência mínima. Caderneta: 0,5% ao mês mais TR de 0,173% ao mês (BCB, série 226, jul/2026), o que dá 0,674% ao mês. Fins educacionais.
O custo anual da poupança vs CDB 100% CDI
R$ 11.674 (CDB, já líquido de IR) − R$ 8.393 (poupança, isenta) = R$ 3.281 por ano para cada R$ 100 mil aplicados. Para R$ 200 mil: R$ 6.562. Para R$ 500 mil: R$ 16.404. O dinheiro não vai embora — ele simplesmente deixa de ser ganho.
De onde Veio a Poupança
A caderneta de poupança foi criada pela Lei 4.380/1964, no mesmo pacote de reformas do sistema financeiro habitacional que criou o BNH (Banco Nacional da Habitação) e o SFH (Sistema Financeiro de Habitação). A ideia original era captar poupança da população para financiar a construção de imóveis — um modelo que funcionou bem por décadas.
Por décadas, a poupança foi o único produto de investimento acessível ao brasileiro comum. Não exigia CPF, não tinha burocracia, não gerava IR. Era literalmente o único lugar seguro para guardar dinheiro além do colchão. Esse contexto histórico explica por que, ainda hoje, ela concentra mais de 89 milhões de cadernetas ativas — segundo dados do Banco Central de janeiro/2026.
O problema é que o Brasil mudou. O Tesouro Direto existe desde 2002. Fintechs e corretoras digitais eliminaram as taxas e a burocracia. O FGC cobre CDBs em até R$ 250 mil por instituição. Mas o hábito da poupança ficou.
A Regra do "Cap" e como Ela Funciona
Antes de 2012, a poupança sempre rendeu 0,5% ao mês + TR, independente de qualquer coisa. Quando a Selic caiu para 7,5% ao ano (2012), ficou evidente que a poupança estaria rendendo mais que o Tesouro Selic depois do IR — o que inviabilizaria o mercado de títulos públicos.
A solução foi a Lei 12.703/2012: sempre que a Selic cair abaixo de 8,5%, a poupança passa a render apenas 70% da Selic + TR. Assim, ela nunca rende mais que o Tesouro Selic líquido. Com a Selic alta (hoje 14,00%), vale a regra antiga: 0,5% ao mês mais a TR — hoje cerca de 8,39% ao ano. O que trava é só a parcela de 0,5%: ela não sobe junto com a Selic. A TR sobe, e é por isso que a caderneta não fica tão para trás quanto a conta popular de "0,5% ao mês" sugere.
Ainda Existe Caso de Uso para a Poupança?
Com toda a honestidade: para quem já tem conta em corretora ou banco digital com CDB de liquidez diária, dificilmente. Mas existem três situações onde a poupança ainda pode ter alguma racionalidade:
Crianças e menores de 18 anos
A abertura de conta de investimentos para menores exige documentação adicional. A poupança ainda é o caminho mais simples para guardar valores pequenos para filhos.
Valores muito pequenos (menos de R$ 100)
Algumas corretoras têm valor mínimo de aplicação. Para valores ínfimos e sem urgência, a poupança pode ser o único acesso disponível.
Quem vive de crédito imobiliário no SFH
Mutuários do SFH (Sistema Financeiro de Habitação) com contrato indexado à TR têm uma hedge natural: a mesma TR que reajusta a dívida rende na poupança. Nesse caso específico, existe razão estrutural para manter saldo em poupança.
A Diferença Acumulada em 5 Anos
O custo anual de 3,3 p.p. parece pequeno. Mas os juros compostos ampliam esse efeito. Considerando R$ 100.000 aplicados por 5 anos, com taxas mantidas constantes para fins de simulação:
| Produto | Após 1 ano | Após 3 anos | Após 5 anos |
|---|---|---|---|
| Poupança (8,39%) | R$ 108.393 | R$ 127.351 | R$ 149.625 |
| CDB 100% CDI (11,67%) | R$ 111.674 | R$ 141.429 | R$ 179.740 |
| Diferença acumulada | R$ 3.281 | R$ 14.078 | R$ 30.115 |
Simulação educacional com taxas fixas: poupança 8,39% (isenta) e CDB 11,67% ao ano já líquido de IR. Na prática, as taxas variam com a Selic e com a TR. Não considera variação de alíquota de IR no CDB ao longo do tempo. Fins ilustrativos.
Por que Tanta Gente Continua na Poupança, Sabendo da Diferença
A explicação não é apenas falta de informação — é psicologia. A poupança é a âncora mental de "lugar seguro para guardar dinheiro" formada ao longo de décadas, e trocar de produto exige uma decisão ativa que muita gente adia indefinidamente por inércia, não por análise. Esse é o mesmo mecanismo comportamental descrito no artigo sobre viés de ancoragem : o hábito antigo funciona como uma referência que o cérebro resiste a atualizar, mesmo diante de números claros.
Migrar da poupança para um CDB ou Tesouro Selic de liquidez diária não envolve risco adicional relevante — ambos têm proteção do FGC ou são garantidos pelo Tesouro Nacional — mas envolve a fricção emocional de sair do que é familiar. Entender esse viés, e os demais que afetam decisões financeiras do dia a dia, ajuda a agir com mais racionalidade. Veja mais em psicologia do dinheiro e decisões emocionais e na comparação direta entre Tesouro Selic vs. poupança em 2026.
Perguntas frequentes
Quanto rende a poupança em 2026?
Com a Selic em 14,00% ao ano (acima do limite de 8,5%), a poupança rende 0,5% ao mês mais a TR. Com a TR em 0,173% ao mês, as duas parcelas se combinam em 0,674% ao mês — cerca de 8,39% ao ano, isentos de Imposto de Renda. A parcela de 0,5% é fixa e não sobe junto com a Selic; quem se mexe é a TR. A regra de 70% da Selic + TR só se aplica quando a Selic está em 8,5% ao ano ou menos.
Por que a poupança não rende mais mesmo com a Selic alta?
Porque a Lei 12.703/2012 fixou um teto: sempre que a Selic está acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês + TR, sem relação direta com o valor da Selic. Isso significa que, em ciclos de juros altos, a poupança fica para trás do CDI — mas menos do que parece, porque a TR, a outra parcela da remuneração, sobe junto com os juros. Com a Selic a 14,00%, a poupança rende cerca de 8,39% ao ano, contra cerca de 11,3% líquidos de um CDB a 100% do CDI.
A poupança tem imposto de renda?
Não. Para pessoas físicas, os rendimentos da poupança são isentos de Imposto de Renda. É uma das poucas vantagens reais do produto, mas raramente compensa a diferença de rentabilidade frente a CDBs e LCIs isentas com liquidez semelhante.
Vale a pena sair da poupança para o CDB ou Tesouro Selic?
Na quase totalidade dos casos, sim. Com a Selic a 14,00%, um CDB 100% CDI rende cerca de 11,67% líquido ao ano (já descontado o IR de 17,5%) contra 8,39% da poupança, que é isenta — uma diferença de aproximadamente R$ 3.300 por ano para cada R$ 100 mil aplicados, sem abrir mão de liquidez diária e com a mesma proteção do FGC até R$ 250 mil por instituição.
Quando a poupança ainda faz sentido?
Em casos específicos: contas para menores de 18 anos (processo mais simples que abrir conta em corretora), valores muito pequenos abaixo do mínimo de aplicação de algumas corretoras, e mutuários do SFH com financiamento indexado à TR, que têm uma hedge natural entre a dívida e o rendimento da poupança.
A poupança pode perder para a inflação?
Sim, e já perdeu no passado. Quando o IPCA supera o rendimento da poupança, o retorno real é negativo — o dinheiro perde poder de compra mesmo rendendo nominalmente. Em 2026, com IPCA em torno de 5,11% e a poupança rendendo 8,39%, o ganho real é positivo: 1,0839 dividido por 1,0511 dá cerca de 3,1% ao ano acima da inflação. Em 2022, com IPCA acima de 12%, a poupança teve retorno real negativo.
O que é a TR (Taxa Referencial) da poupança?
A TR é calculada mensalmente pelo Banco Central com base em títulos e CDBs de curto prazo dos maiores bancos, com um redutor definido pelo CMN. Entre 2017 e 2021, com juros baixos, ela ficou zerada — e virou hábito ignorá-la. Não é mais o caso: com a Selic em 14% ao ano, a TR está em 0,173% ao mês (série 226 do BCB) há doze meses seguidos. Ela responde por cerca de 2,2 pontos percentuais dos 8,39% ao ano que a caderneta paga hoje, e sobe quando os juros sobem.
A poupança pode ter rendimento negativo em termos reais?
Sim. Quando o IPCA supera o rendimento da poupança, ela entrega retorno real negativo. Com IPCA em 5,11% e a poupança rendendo 8,39%, o ganho real hoje é positivo: 1,0839 dividido por 1,0511 dá cerca de 3,1% ao ano acima da inflação. Mas em 2022, com IPCA em 12,13% e poupança em ~8%, o retorno real foi negativo.
Escrito por Patrimo
O Patrimo é um app brasileiro de controle financeiro. Escrevemos os guias que gostaríamos de ter lido no começo: com a conta feita na sua frente, exemplos em reais e números que vêm do Banco Central, da B3 e da Receita Federal — nunca de achismo nem de promessa de rentabilidade. Conteúdo educacional; não é recomendação de investimento.
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