Quatro combinações definem como sua previdência privada será tributada: PGBL com regressiva, PGBL com progressiva, VGBL com regressiva, VGBL com progressiva. Cada combinação atende a um perfil. Escolher errado no início custa caro no resgate — e migrar não é trivial. Este texto explica as diferenças e ajuda você a decidir.
PGBL — o plano com dedução
O PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) permite abater até 12% da sua renda bruta tributável anual na declaração completa do IR. Se você ganha R$ 10.000/mês (R$ 120.000/ano), pode aportar até R$ 14.400 no PGBL e deduzir todo o valor da base de cálculo do IR naquele ano.
Exemplo concreto — quanto o PGBL economiza em IR
Renda bruta anual: R$ 120.000
Aporte PGBL (12%): R$ 14.400
Base de cálculo antes do PGBL: R$ 120.000 − outras deduções
Base após dedução PGBL: reduz R$ 14.400 da base
Alíquota efetiva aproximada: 22,5%
Economia de IR no ano: R$ 14.400 × 22,5% ≈ R$ 3.240
Esse dinheiro é investido agora — fica rendendo na previdência por décadas antes de ser tributado no resgate.
A contrapartida: no resgate, o IR incide sobre o valor total (principal + rendimento). Para quem usa a tabela regressiva e mantém por mais de 10 anos, a alíquota cai para 10% — ainda vale a pena pela vantagem fiscal da acumulação.
VGBL — sem dedução, tributação só sobre ganho
O VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre) não oferece dedução nos aportes. Em compensação, no resgate o IR incide apenas sobre o rendimento. Útil para quem declara pelo modelo simplificado (não usa dedução do PGBL), quem já aportou 12% da renda em PGBL e quer complementar, ou para profissionais liberais que não querem lidar com a dedução.
Tabela regressiva — como funciona
| Tempo de aporte | Alíquota IR | Avaliação |
|---|---|---|
| Até 2 anos | 35% | Muito caro — não resgatar |
| 2 a 4 anos | 30% | Ainda caro |
| 4 a 6 anos | 25% | Moderado |
| 6 a 8 anos | 20% | Aceitável |
| 8 a 10 anos | 15% | Bom |
| Acima de 10 anos | 10% | Ótimo — alvo ideal |
A alíquota é calculada por aporte, não pelo plano todo. Cada contribuição tem sua própria "idade". Quem começa cedo e mantém aportes regulares vê os primeiros aportes atingirem 10% antes dos últimos.
Tabela progressiva — a tabela do IR tradicional
Na progressiva, no momento do saque o valor resgatado entra na declaração anual como renda tributável, sujeito à tabela do IR:
| Base mensal | Alíquota | Contexto de uso |
|---|---|---|
| Até R$ 2.259,20 | Isento | Ideal para saques mensais pequenos |
| R$ 2.259,21 a 2.826,65 | 7,5% | Ainda favorável |
| R$ 2.826,66 a 3.751,05 | 15% | Equivale à regressiva 10 anos+ |
| R$ 3.751,06 a 4.664,68 | 22,5% | Regressiva começa a ser melhor |
| Acima de R$ 4.664,68 | 27,5% | Regressiva muito melhor |
No ato do resgate, há retenção na fonte de 15%. O ajuste final acontece na declaração anual — se sua alíquota efetiva for menor (por outras deduções), você recebe a diferença de volta.
O impacto real das taxas de administração
Antes de qualquer decisão sobre PGBL vs VGBL ou regime tributário, a taxa de administração é o fator que mais destrói patrimônio no longo prazo. Veja a diferença de um plano de 0,5% a.a. vs 2% a.a. em 25 anos, com aporte mensal de R$ 1.000 e rentabilidade bruta de 10% a.a.:
| Prazo | Taxa 0,5% a.a. | Taxa 1,0% a.a. | Taxa 2,0% a.a. | Diferença (0,5% vs 2%) |
|---|---|---|---|---|
| 5 anos | R$ 77.400 | R$ 75.800 | R$ 72.700 | −R$ 4.700 |
| 10 anos | R$ 203.500 | R$ 194.900 | R$ 178.900 | −R$ 24.600 |
| 20 anos | R$ 763.600 | R$ 698.200 | R$ 587.200 | −R$ 176.400 |
| 25 anos | R$ 1.326.500 | R$ 1.183.200 | R$ 948.500 | −R$ 378.000 |
Aporte: R$ 1.000/mês. Rentabilidade bruta: 10% a.a. Diferença entre taxa 0,5% e 2%: ao final de 25 anos, patrimônio ~28% menor. Taxa de carregamento de entrada/saída adiciona mais destruição de valor — planos competitivos têm taxa 0% de carregamento.
Qual combinação faz sentido?
| Perfil | Combinação ideal | Motivo |
|---|---|---|
| Renda alta, declaração completa | PGBL + regressiva | Dedução anual + 10% na saída após 10 anos |
| Renda baixa/média, simplificado | VGBL + regressiva | IR só sobre rendimento, acúmulo longo com 10% |
| Planeja sacar pouco/mês na aposentadoria | VGBL + progressiva | Saques mensais abaixo de R$ 2.259 = isento |
| Já tem PGBL, quer mais aporte | VGBL + regressiva | PGBL já atingiu 12% — VGBL complementa |
| Horizonte curto (< 10 anos) | Avaliar caso a caso | Regressiva ainda não atingiu 10% — progressiva pode ser melhor |
Checklist antes de contratar previdência privada
Taxa de administração: abaixo de 0,80% a.a.
Taxa de carregamento: zero (planos competitivos cobram 0%)
Regime tributário definido: regressiva para longo prazo, progressiva para saques baixos na aposentadoria
Tipo de plano: PGBL se você declara no completo e tem renda alta; VGBL nos demais casos
Performance do fundo: histórico de 5+ anos comparado ao benchmark
Portabilidade disponível: sim, é direito seu migrar de plano sem gerar IR
Como decidir a tabela em 3 perguntas
A escolha entre regressiva e progressiva é a decisão tributária que mais pesa no resgate — e, no caso da regressiva, é irreversível. Em vez de decorar tabelas, responda três perguntas em sequência:
- Vou manter os aportes por 10 anos ou mais?
Se sim, a regressiva chega a 10% — quase sempre a melhor opção. Se o horizonte é incerto ou menor que 8 anos, considere começar na progressiva (ela pode virar regressiva depois; o contrário não).
- Quanto vou sacar por mês na aposentadoria?
Se o saque mensal ficar abaixo de R$ 2.259 (faixa isenta) ou na faixa de 7,5%, a progressiva pode pagar menos que os 10% da regressiva. Saques mensais altos empurram para a regressiva.
- Vou sacar de uma vez ou em parcelas mensais?
Resgate único e grande joga o valor para a faixa de 27,5% na progressiva — aí a regressiva 10% domina. Renda mensal diluída favorece a progressiva. A forma do saque muda a resposta.
O ponto de equilíbrio prático: a faixa de 15% da progressiva (saque mensal entre R$ 2.826 e R$ 3.751) equivale, grosso modo, à regressiva de 10+ anos. Abaixo disso, progressiva tende a ganhar; acima, regressiva. Por isso quem acumula muito e planeja sacar valores altos quase sempre escolhe regressiva, enquanto quem usa a previdência como renda mensal modesta pode se beneficiar da progressiva. Para a decisão de fundo — se a previdência é o veículo certo para você — veja o guia definitivo de PGBL vs VGBL e a análise de quando a previdência privada vale a pena em 2026.
Portabilidade — o que você precisa saber
A portabilidade de previdência é livre e não gera fato gerador de IR. Você pode migrar de um plano ruim (com taxas altas e performance fraca) para um plano melhor preservando o tempo acumulado da tabela regressiva e o histórico dos aportes.
Regra importante: portabilidade só ocorre entre planos do mesmo tipo (PGBL para PGBL, VGBL para VGBL). Também é possível migrar de progressiva → regressiva dentro do mesmo plano, mas o contrário não funciona.
Perguntas frequentes
Tabela regressiva ou progressiva: qual escolher?
A regressiva começa em 35% (até 2 anos) e cai até 10% (acima de 10 anos), sendo ideal para horizonte longo e valores de saque mais altos. A progressiva segue a tabela do IRPF (0% a 27,5%) e é melhor para quem pretende sacar valores mensais baixos na aposentadoria, que caiam nas faixas isenta ou de 7,5%. Para acúmulo de 10+ anos, a regressiva costuma vencer.
A escolha da tabela de IR é definitiva?
A opção pela tabela regressiva é irreversível: uma vez escolhida, não há volta para a progressiva. Já a progressiva pode ser migrada para regressiva a qualquer momento dentro do mesmo plano. Por isso, na dúvida e com horizonte indefinido, muitos começam na progressiva e migram para regressiva quando o longo prazo se confirma.
Qual a diferença entre PGBL e VGBL na hora do imposto?
No PGBL, o IR no resgate incide sobre o valor total (principal + rendimento), mas você deduz até 12% da renda bruta na declaração completa durante os aportes. No VGBL não há dedução, porém o IR no resgate incide apenas sobre o rendimento. PGBL serve para quem declara no completo; VGBL para quem usa o simplificado ou já atingiu os 12%.
A alíquota da regressiva vale para o plano todo?
Não. Na tabela regressiva, a alíquota é calculada por aporte, não pelo plano inteiro. Cada contribuição tem sua própria 'idade'. Quem aporta de forma regular vê os depósitos mais antigos atingirem 10% antes dos mais recentes, num resgate parcial o sistema costuma usar o critério PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai).
Posso mudar de PGBL para VGBL por portabilidade?
Não. A portabilidade só ocorre entre planos do mesmo tipo (PGBL para PGBL, VGBL para VGBL) e não gera fato gerador de IR. Trocar de PGBL para VGBL exigiria resgate com tributação e novo aporte, perdendo o tempo acumulado na tabela regressiva. Por isso a escolha inicial do tipo de plano importa tanto quanto a escolha da tabela.
Se eu errar a tabela, dá para corrigir?
Parcialmente. Se escolheu progressiva e percebeu que o horizonte é longo, pode migrar para regressiva — e o tempo de permanência costuma ser contado a partir dessa migração para fins de redução de alíquota. O caminho inverso (regressiva para progressiva) não é permitido. Por isso a regressiva exige mais convicção sobre o prazo.
Qual a diferença entre PGBL e VGBL?
No PGBL, os aportes podem ser deduzidos do IR até 12% da renda bruta anual, mas no resgate o imposto incide sobre o valor total (principal + rendimento). No VGBL não há dedução, mas o imposto no resgate incide apenas sobre o rendimento. PGBL faz sentido para quem declara no modelo completo; VGBL, para quem usa o simplificado ou já atingiu os 12%.
Posso mudar de PGBL para VGBL?
Não diretamente. A migração entre PGBL e VGBL exige resgate (com IR na saída) e novo aporte, perdendo o tempo acumulado na tabela regressiva. Por isso a escolha inicial é importante. Portabilidade existe apenas entre planos do mesmo tipo (PGBL para PGBL, VGBL para VGBL).
Previdência privada é melhor que Tesouro IPCA+?
Depende do seu cenário. Previdência tem vantagens fiscais (dedução PGBL, ausência de come-cotas em planos PGBL/VGBL) e estrutura de renda vitalícia que o Tesouro IPCA+ não oferece. Em contrapartida, o Tesouro IPCA+ costuma ter custo total menor. Ambos podem coexistir na carteira com funções diferentes.
O que é come-cotas na previdência privada?
Previdência privada (PGBL e VGBL) não sofre come-cotas — essa é uma vantagem em relação a fundos de investimento convencionais. Fundos comuns têm IR antecipado semestralmente (come-cotas): 15% para fundos de longo prazo e 20% para curto prazo. Previdência só tributa no resgate ou na renda, o que potencializa os juros compostos ao longo de décadas.
Escrito por Patrimo
O Patrimo é um app brasileiro de controle financeiro. Escrevemos os guias que gostaríamos de ter lido no começo: com a conta feita na sua frente, exemplos em reais e números que vêm do Banco Central, da B3 e da Receita Federal — nunca de achismo nem de promessa de rentabilidade. Conteúdo educacional; não é recomendação de investimento.
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